quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Fazer o bem

Quando criança, sempre que me sentia triste, um pouco deslocado e não sabia dizer o que estava sentindo, ouvia da minha mãe o seguinte ditado: mente desocupada, oficina do diabo. Era como se ela quisesse justificar o que se passava comigo. Talvez por se sentir impotente. Talvez porque eu não soubesse dizer o que sentia. O fato é que cresci com isso na cabeça. Eu passei uma infância difícil, mas nunca me senti impotente, pois tinha o apoio e conforto da minha mãe, de alguma forma. Ela me protegia, me completava. A perda dela foi um dos episódios mais traumáticos da minha vida. Um dia eu conto com calma. Mas, apesar de toda essa proteção, minha mãe nunca soube enxergar que eu era um menino diferente. Então sempre existiu um vazio. Eu pensava assim, quando crescer vou me tornar famoso e mostrar pra esses caras que me zoam na escola que eu sou mais eu! Que eu venci! Eu cheguei lá! O fato é que virei adulto e não cheguei a lugar nenhum. Mas estou tentando. E esse blog é um pouco isso, essa tentativa. Tentativa de chegar a um lugar. Posso bater a cara na parede, mas dou meia-volta e sigo em outra direção.

Outra coisa que ouvia muito da minha mãe, quando eu tinha alguma queixa era: olhe para trás e veja quanta gente em pior situação que a sua. Caramba! Então eu não podia expressar meus sentimentos? Tinha que parecer feliz, agradecido e contente por estar em uma situação aparentemente melhor que a de outra pessoa? Era mais ou menos isso que interpretava, embora hoje isso me pareça muito cruel. Mais cruel ainda é seria olhar para "trás" (não seria para os lados) e agradecer por não ser miserável como fulano, não ter as limitações de sicrano. Eu não queria saber de fulano, de sicrano, de beltrano. Eu queria que alguém me entendesse. Eu queria saber um pouco de mim. Claro, eu me consternava com a situação difícil do outro. Rezava pelos miseráveis, por exemplo. Mas agradecia por ter saúde e não por não ser doente. Dá pra entender a diferença. Acredito que minha mãe não quisesse, exatamente, que eu agradecesse por não estar em situação tão ruim quanto a de outras pessoas, mas era o que me parecia.



Sabe, acho mesmo que a gente tem que, pelo menos uma vez ao dia, ser "egoísta" e pensar na gente. Olhar com franqueza pro nosso interior. Aceitar as nossas contradições sem os prejulgamentos tão comuns, que a gente aceitou desde pequeno. Aceitar a nossa raiva, a nossa inveja, depois tentar entender o por quê e, ai sim, modificar esse sentimento. Mas tentar reprimir nunca dá certo.

Mas uma coisa que aprendi com a minha mãe e que sei que é bem importante para que a gente se sinta bem é justamente fazer o bem a outro. Mais do que olhar para trás, para os lados, para frente, para cima, para baixo ou para todas as direções, minha mãe me ensinou a amar e respeitar o próximo, a praticar a tal caridade cristã, mas que para mim não deve estar associada exclusivamente aos cristãos, melhor dizer caridade humana. E acho que quando olhamos o outro, independente dele estar em situação melhor ou pior, como um irmão nosso, podemos nos colocar na situação dele, não para dizer como ele deve agir, mas para tentar entender a forma dele agir. Se for o caso de recriminar, esperar o momento certo para isso. Mais ou menos isso é o que eu acho que deveria acontecer. Mas as pessoas têm o péssimo hábito de julgarem os outros sob os seus pontos de vista. Geralmente, essa atitude surge embasada em crendice, ignorância, prejulgamento mesmo. E isso acaba gerando discriminação.

Escrevi isso tudo, para dizer que o preconceito dói. Já fui vítima de preconceito porque eu era diferente na escola, meio nerd. Já fui vítima do preconceito porque eu sou gay. Já fui vítima do preconceito, aliás, ainda sou, porque eu tenho depressão. Mas procuro driblar o preconceito. Afinal, só eu sei a delícia e a dor de ser o que eu sou, certo? Mas como sou contra o preconceito, gravei um vídeo pra campanha contra o preconceito que as pessoas têm com os soropositivos. Achei bacana e estou divulgando aqui. Conheça o site! Você pode gravar depoimento, escrever, mandar foto! E, claro, se informas a respeito do HIV/AIDS! Clique aqui e acesse o site!


Um comentário:

Elenice disse...

Vc chegou e chega a cada dia sempre, vc esta vivo e isto é maravilhoso. Todos temos nossas limitações e a cada dia temos a oportunidade de sermos melhores para nós mesmos!!!

Boa noite e agradeça sempre pelo dia de hoje!!!