sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Novamente - publicado em 23/12/2009


Estive ausente por alguns dias e tenho motivo. Resolvi tomar uma decisão difícil, mas que julgava necessária: internei-me em um SPA. Não somente para emagrecer, mas também para entrar em contato comigo, com a natureza, enfim, me encontrar. Estou em uma busca de um sentido maior para a vida. E esse auto-conhecimento é necessário. Antes, consultei um astrólogo. Ele foi um pouco duro, sei lá, talvez eu estivesse esperando palavras amenas. Mas ele me disse uma coisa interessante. Explicou, na linguagem astrológica que tenho uma forte ligação com a minha casa e a minha família. E isso não deixa o "menino" virar "homem". Nesse ponto, ele tem razão.


Ficar trancado em casa não estava me ajudando. Logo que cheguei ao SPA, foi difícil. Estava vazio. Fui para o quarto e confesso que foi uma noite difícil. Senti medo, melancolia, uma sensação estranha e inominável, algo como, caramba, agora sou eu. Mas não estava me sentindo eu, totalmente. Sentia como se estivesse aqui no automático. Então, elevei meus pensamentos e procurei aceitar que era, sim, eu. E que eu precisava me desarmar para me sentir mais inserido no ambiente. Acho que por muito tempo só senti hostilidade por parte das pessoas. Não recebia informações positivas a meu respeito. Hostilidade na escola, hostilidade por parte do meu pai. E minha mãe, com a melhor das intenções, me ensinava que não era correto "contrariar" o meu pai. Meu pai pegava no meu pé pra caramba. Ele não aceitava o meu jeito. Acho que ele percebia indícios de que eu era diferente. Hoje em dia eu percebo um jeito mais feminino em mim na minha infância. Mas na época eu nem me dava conta disso. Estava simplesmente sendo eu. Mas voltando à minha mãe, ela me ensinava que eu não devia contrariar o meu pai, que me criticava o tempo todo. Então na minha cabeça era como se eu estivesse errado. Na época eu sabia que estava certo em brigar para ser respeitado. Eu acho até hoje que quem me perseguia era meu pai. E durante a minha infância eu tinha a proteção da minha mãe. Sempre que meu pai brigava comigo, ela se metia. Eu me sentia culpado. Ela me defendia e os dois brigavam. Eu achava que era o responsável por aquilo. Era muita responsabilidade para uma criança.


Só sei dizer que depois que minha mãe morreu eu já estava sem a proteção dela. É que durante a doença dela, algo se desencadeou e ela se afastou muito de mim. Ela me culpava pelas coisas, enfim, estava totalmente afastada. As últimas palavras que ouvi de minha mãe foram, enquanto ela estava cheia de dor, antes de ir para o hospital: quero descontar toda a minha raiva em você. Ela tentou me bater, mas não doeu. Ela não tinha mais força. Mas essas palavras me acompanham e mexem comigo, profundamente, até hoje. Para completar, meu pai me contou que, enquanto ela estava doente, ele contou a ela sobre a minha homossexualidade. Eu não tive a oportunidade de fazer isso. Ela estava doente e eu não queria preocupa-la. Então tenho minhas dúvidas se isso contribuiu para que ela se afastasse de mim. Minha mãe tinha colegas gays, parecia não ter preconceito. Mas eu me lembro uma vez, quando eu resolvi sair com uma camisa megaestampada e ela disse que não iria a um aniversário comigo, se eu fosse vestido daquele jeito. Então fica na minha cabeça: será que minha mãe me aceitaria hoje em dia?


Essa resposta eu jamais terei. Já ouvi de mais de uma pessoa que, sim, ela me aceitaria, mas isso eu jamais saberei. O que posso garantir é que eu não mudaria o meu jeito, nem por ela. Porque não foi escolha, porque eu sou assim, Deus me fez diferente em vários aspectos e isso não é um defeito. Não é uma qualidade. Simplesmente sou assim.
Então, voltando um pouco, quando minha mãe morreu, lembro-me de ter chorado muito à noite, conversando com meu pai. Era um choro de desespero. Eu me perguntava como iria conviver com ele. Logo nós que sempre no demos tão mal. No início ele até que se esforçou. Mas a natureza dele é difícil. Então, meses depois ele já estava com uma namorada lá no nosso ap. Ele saia, se divertia. Meus irmãos começaram a sair. A vida seguia. E eu fui me afundando. Me anulando para agradar o meu pai. E me afundando no álcool. Foi um período muito difícil. Passou, mas deixou marcas. Eu tive que recomeçar. Meu pai não confiava mais em mim, por causa dos excessos com o álcool e acho que, também, porque ele é meio sádico.


O fato é que estou aqui, internado em um SPA. Vou passar um mês. Para me encontrar. Para seguir adiante. Meu pai e a namorada dele, uma outra, não aquela antiga, ficaram muito felizes quando eu disse que viria. Foi uma decisãpo repentina, atá agora não sei como fiz isso. Mas sabe, acho que está sendo importante. Mesmo em momentos difíceis como hoje, perto da "noite feliz".

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