sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Segue em frente - publicado em 25/12/2009


Hoje estou o dia inteiro no quarto. Passei a manhã dormindo. Pior que amanhã de manhã, serei acordado às 07h15 e se não levantar até às 09h, nada de café-da-manhã. Nem peguei o meu lanche de manhã. Tomei café e voltei para dormir. E olha que a noite de ontem foi boa. Minha irmã me fez uma rápida visita surpresa. Depois fiquei e o resto do povo que está no SPA em uma roda de vilão. Alguns foram dormir.
O fato é que hoje estou baixo-astral. Desde o dia 23 que estou assim. Estou tentando segurar a barra. Posso passar todos os dias aqui sem praticar exercício, mas não é esse o meu objetivo, porque o tempo demora pra passar quando estou sem fazer exercício. Não tenho nada de interessante para fazer. Porque os canais de filme da TV por assinatura são bloqueados. Sei lá, até arrumei alguns amigos. Mas sinto que não sou tão popular quanto eu gostaria de ser.
Por exemplo, hoje cheguei para almoçar e tinha uma mesa grande arrumada, por causa do Natal. Aí eu cumprimentei o pessoal que estava lá do meu jeito, mais calado, introspectivo e fui direto para a parte da mesa onde tinham quatro pessoas que eu conheço mais. Depois de um tempo, as duas mulheres sairam. Fiquei eu e um cara. Ficamos em silêncio, enquanto comíamos a salada. Parecia que o tempo não passava, mas procurei manter a naturalidade. Vai ver é o meu jeito e o jeito do cara. Vai ver somos mais calados. Aí veio o prato principal e eu procurei puxar assunto. O cara foi simpático e tal. Mas me respondeu quase que monossilabicamnte, depois se despediu e levantou. Eu fiquei lá. Até aí, tudo bem, porque ficar sentado a mesa depois de terminada a refeição em um SPA é um pouco complicado mesmo. Só que aí ele parou na mesma mesa, um pouco a frente, onde tinha um casal recém-chagado e puxou assunto, ainda ficou um tempo conversando. Caramba! Comigo ele quase não conversou. Será meu jeito? Será que estou cismado? Será que foi algo natural e eu encasquetei com isso?
Ontem, também, durante a ceia, estávamos todos juntos. E, até pelo o meu jeito de me vestir - gosto de usar roupas diferentes - percebi que um dos rapazes da recreação percebeu algo diferente em mim. Devo ter um jeito mais feminino. Sei lá. Aí ontem, dois caras da recreação dançaram juntos, como se fossem gays e eu logo pensei: deve ser comigo, devem estar debochando de mim. Depois, mais tarde, porque as brincadeiras continuaram, pensei, não, isso deve ser uma preocupação minha. Acho que não estão fazendo nada.
Veja bem, eu me aceito como sou, aceito a minha depressão, aceito a minha homossexualidade. Mas, muitas vezes, acho que as pessoas, que parte do mundo está contra mim. Tenho dificuldades em  perceber, mas me armo parante o mundo.
Quem acompanha o blog sabe que eu fui vítima de bullying durante anos. E isso, naturalmente, deixa sequelas. Além disso, meu pai pegava no meu pé. Nós discutíamos muito o tempo todo e minha mãe sempre me dizia para não contraria-lo, que era melhor assim. Mas eu precisava me expressar, mostrar meus sentimentos. Minha mãe também me defendia muito, quando eu e meu pai brigávamos. Aí ela brigava com ele. Então eu me sentia culpado. Era como se eu fosse responsável pelo relacionamento conturbado dos dois. Mas as coisas não funcionam assim. Hoje sei separar as coisas, mas na época não sabia. Então eu achava que tinha algo errado comigo, que eu era o causador de todos os problemas da família.
Além disso, tinha o fato de eu brigar muito com meus irmãos. Eu era uma peste em casa. Sempre causava confusão. Precisava mostrar as pessoas que algo não ia bem comigo na escola, onde eu era alvo de piadas, vítima de humilhações constantes, muitas vezes com o aval dos inspetores e professores. Só que ninguém percebia nada lá em casa. E eu não tinha a consciência de que o meu comportamento era por causa disso. E eu me sentia culpado, chorava, tentava mudar o meu jeito. Eu pensava, meu pensamento vai mudar hoje, só depende de mim. Eu me esforçava. A minha mãe passava pra gente que só dependia da gente mudar. Eu tentava. Pensava, hoje vou estar mais calmo. Era um esforço enorme. Mas eu não conseguia. Aí vinha a decepção. Eu pensava, hoje vou falar na escola, vai dar tudo certo. Mas dava tudo errado. Era uma tortura ir à escola. Eu não conseguia me relacionar com a maioria das pessoas. Eu apanhava, era xingado, passavam a mão na minha bunda ou enfiavam o dedo no meu  ânus por cima da bermuda, cantavam músicas me ridicularizando, me batiam no rosto. Um dia, um auxiliar mandou eu sentar na frente, atrás de uma menina. Ela deu um escândalo. Ela disse ao berros, para a classe toda ouvir, que não iria sentar na frente de um anormal. Disse que eu era lixo etc. O Auxiliar não fez nada. Eu fiquei com tanta vergonha que em uma noite de Natal, ao acordar, tive a visão dessa menina entrando em meu quarto e me dando um tapa no rosto. Eu senti a mão dela forte em meu rosto.
Hoje sei que isso tudo me afetou. Eu ando meio armado por causa disso. Hoje tenho a consciência de que somos todos irmãos e estamos neste planeta de expiação de passagem, para cumprirmos nossa missão. Mas mudar totalmente, deixar o que ocorreu no caminho é complicado, acho que é impossível. Eu pensava, quando criança, o tempo vai passar, serei um artista famoso, reconhecido e tudo isso vai ficar no passado. Esses que me humilham, irão me ver brilhar. E nada disso aconteceu. Pelo contrário, um dos caras que mais me humilhavam virou uma personalidade famosa e querida pelo Brasil. Eu não consegui caminhar.
Estou no SPA tentando cuidar de mim. Estou me esforçando para melhorar. Faço terapia, me medico através do psiquiatra, mas um Anjo Mal, uma melancolia, uma tristeza, um pessimismo teimam em me acompanhar. Preciso aceitar isso e tentar viver assim? Preciso lutar para mudar, mesmo não me sentindo tão forte? Será que a minha luta tem sido suficiente? São dilemas que tento solucionar, enigmas que tento decifrar. Enquanto isso a vida segue. O tempo não para.


http://www.youtube.com/watch?v=je-RTYbzoEk&feature=player_embedded

O vídeo acima fala um pouco sobre o que eu escrevi. A vida não para...

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